Ao menos 60 pessoas já foram citadas no inquérito policial que investiga a distribuição ilegal de casas populares do Acre. As investigações ocorrem dentro da Operação Lares, cuja primeira fase foi deflagrada pela Polícia Civil em fevereiro passado.

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João Renato Jácome

Nesta terça-feira, dia 26, uma nova etapa foi executada, culminando com a prisão de servidores comissionados e ex-terceirizados da Secretaria de Habitação e Interesse Social (SEHAB). Os contemplados com residências devem ser acionados criminalmente falsidade ideológica, corrupção passiva e estelionato.

Para terem direito às casas, os moradores assinaram documentos e atestaram estar em situação de vulnerabilidade econômica e social, critério indispensável a quem pretende receber uma casa popular construída com recursos públicos. Além disso, seria necessário residir à época da inscrição, em área de risco e alagadiça, ou seja, atingida pelas águas de mananciais em cheias.

“Temos indícios de outras dezenas de pessoas. Vamos investigar os envolvidos nesse esquema fraudulento. Esse é um trabalho de continuação da Lares. Vamos abrir um novo inquérito para investigar a participação de outras pessoas da Secretaria de Habitação. Vamos agora encontrar meio para indiciar todos os envolvidos”, diz o delegado Roberth Alecar.

CASAS INVESTIGADAS ESTÃO SENDO BANDONADAS

Segundo investigador da polícia judiciária, não resolve em nada abandonar as casas após saber das chances de punição. Uma vez percebidos os crimes, eles são listados, o que automaticamente deve ser remetido ao Poder Judiciário.

O delegado explica isso ao comentar o grande número de casas que estão sendo abandonadas por moradores desde a terça-feira, dia em que a Lares deflagrou nova fase. Nesta quarta-feira, , novas imagens mostram moradores colocando os móveis para fora de casa, à espera de um veiculo para fazer o transporte dos objetos.

O maior número de mudanças ocorre no bairro Rui Lino, num dos conjuntos habitacionais construídos pelo governo do Acre. No local é possível ver casas radicalmente reformadas e com a área de construção bastante alterada. Além disso, muitas residências têm na garagem caminhonetes ou carros de luxo. As suspeitas apontam que no conjunto muitas casas foram repassadas ilegalmente.

CRIMES COMEÇARAM ANTES DAS ELEIÇÕES DE 2014

Segundo as investigações, ao menos R$ 1 milhão foi movimentado pela organização criminosa composta por servidores públicos lotados na Secretaria de Habitação e Interesse Social (SEHAB), e na Junta Comercial do Estado do Acre (JUCEAC). A promotora Marcela Ozório, membro do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), esclareceu que “isso acontece desde a época de pré-campanha de governo”.

Os criminosos cobravam, segundo investigado, valores entre R$ 5 mil e R$ 30 mil. O intuito era facilitar o acesso dos pagantes às casas populares. Empresários também são alvos das investigações.

DIRETORES E TERCEIRIZADOS DA SEHAB SÃO PRESOS

O governador Sebastião Viana mandou exonerar o diretor-executivo da Secretaria de Estado de Habitação e Interesse Social (Sehab), Daniel Gomes, e o colega dele de trabalho, Marcos Henrique Huck, que respondia por um departamento técnico do órgão estadual.

Marcos e Daniel foram presos na terça, 26, durante a segunda fase da Operação Lares, que investiga a distribuição ilegal de casas populares. Os dois são acusados de comercializar casas e, inclusive, as distribuírem a empregadas pessoais, como uma amante e um a ex-mulher de Daniel, além da babá da filha de Marcos. Eles negam o cometimento de crimes.

As outras duas pessoas com prisão preventiva, Rossandra Mara Melo de Lima e Cícera Dantas da Silva, técnica social e terceirizada, respectivamente, em conjunto, faziam as vendas das residências construídas com dinheiro público. Apenas Rossandra confessa os crimes e, inclusive, coopera com as investigações, entregando desde documentos até depoimentos que esclarecem o caso.

“A Rossandra vendia a casa e depois repassava o dinheiro para o Cícera. A gente tem depoimentos sobre os pagamentos dentro de um dos banheiros da Sehab. Se a Rossandra fosse orientada a vender por cinco, ela ia lá, vendia por quinze mil e passava os cinco para a Cícera. Depois, ela confessou que usou o dinheiro para abrir uma loja de doces e comprar carros”, diz o delegado.

EQUIPAMENTOS FORAM EXTRAVIADOS PARA DESTRUIÇÃO DE PROVAS

Computadores apreendidos durante a segunda fase da Operação Lares comprovaram que Daniel Gomes e Marcos Huck extraviaram computadores utilizados por eles próprios, Cícera e Rossandra. O objetivo era destruir os arquivos que estavam nos aparelhos, dificultando assim que as investigações chegassem a eles ou outras pessoas, que colaboravam externamente com os crimes.

“Daniel e Marcos estavam ocultando provas. Eles chegaram a ocultar computadores tanto da Cícera, como da assistente. Uma tentativa clara de impedir que a polícia chegasse a mais nomes. Por isso eles estão presos hoje. O Marcos Huck, coordenador técnico-social, entregou casa para a babá dele. Ela não tinha o perfil porque não morava em área de alagação. Ela morava no Conquista”, completa o investigador Roberth Alencar.

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