Jovens acabaram sendo vítimas fatais da violência que assola o estado. Famílias de vítimas podem buscar ajuda na Secretaria de Direitos Humanos na cidade.

Mães falam da dor de perder os filhos em meio à violência no AC: ‘não tem um dia que eu não chore’ — Foto: Tácita Muniz/G1
Por Tácita Muniz, G1 AC — Rio Branco

“A vida hoje não tá valendo nada, dona Durce”. A afirmação foi dita pelo barman Manoel Neto por meio de um áudio enviado à mãe, Durce Mendes, de 48 anos, meses antes dele mesmo ser morto por dois criminosos que o assaltaram.

Desde o final de 2015, a guerra entre facções tem ficado acirrada no estado. Os grupos criminosos rivais buscam espaço e, muitas vezes, protagonizam uma verdadeira batalha territorial. No meio de tudo isso, a população tenta seguir o fluxo normal.

8 de maio de 2018. Neto saiu para mais uma noite de trabalho como barman em um evento privado. Por volta das 4h, quando retornava para casa no bairro Joafra, em Rio Branco, foi abordado por dois criminosos que atiraram contra ele.

O tiro, dado nas costas do jovem de 28 anos, interrompeu a vida de quem sonhava em ser policial militar e que, sempre muito crítico, dava opiniões pontuais sobre a insegurança no estado.

No dia do assassinato, a mãe chegou a ouvir o tiro. Viu a movimentação de moto em frente ao seu portão, chegou a mandar mensagem para os vizinhos para falar que estava assustada. Por último, enviou ao filho: “Neto, cadê você?”.

A mensagem não foi visualizada e Durce não viu mais o filho entrar em casa. Ao ouvir o barulho, sem se dar conta de que era um tiro, ela tinha acabado de “presenciar” a morte do filho.

Pela sacada, a escuridão encobria o corpo do filho, que já estava na frente da casa, enquanto ela se via assustada com a movimentação incomum naquele horário.

Durce chegoua mandar mensagem para o filho perguntando onde ele estava — Foto: Tácita Muniz/G1

“Vi dois caras em uma moto, não identifiquei que era tiro, ainda mandei uma mensagem pra ele, sendo que ele já estava caído e eu olhando pra rua, mas eles tinham quebrado as lâmpadas. Não dormi mais, o dia foi clareando e vi o corpo do meu filho no chão, reconheci pelos pés. Desde daquele dia, o amanhecer pra mim não é mais o mesmo”, conta Durce ainda com um choro dolorido de saudade.

Ela tinha dois filhos: Neto, com 28 anos, e uma jovem de 22. Em 2010, ela perdeu a mãe e o marido. Desde então, o único filho se tornou o homem da casa e o protetor das duas.

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Os dois acusados de matar Neto foram condenados, ainda no começo de agosto, a mais de 70 anos de prisão. Elivelton da Silva e Francisco Farias cometeram diversos crimes na noite em que mataram o barman.

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Apesar de no processo constar que ele tentou reagir ao assalto, a mãe contesta a versão e acredita que o filho tentou protegê-la. Os bandidos atiraram em Neto e levaram o celular e a moto do jovem.

“Neto e eu tínhamos um código de que, se quando a gente chegasse visse algo estranho na rua, a gente não entraria em casa, daria a volta no quarteirão. Mas, tinha chovido e a rua estava escorregadia. Acho que ele tentou passar direto, a moto derrapou e acabaram matando ele. Eles foram tão covardes, que atiraram pelas costas. Meu filho morreu tentando me proteger”, relembra emocionada.

A mãe guarda diversas fotos do filho como lembrança — Foto: Tácita Muniz/G1

‘Quem ficou condenada fui eu’

A condenação dos assassinos traz um alívio à Durce, mas não a conforma. A saudade do filho ainda é latente. As perguntas em busca de uma resposta, um acalento, ainda tiram o sono.

Envolta em uma bandeira do Brasil, ela clama por justiça e segurança para que outras mães não passem pelo o que ela está passando. Pra tentar amenizar a dor, ela abre conversas antigas com o filho no celular. Reproduz e repete o áudio, fecha os olhos como se, ao abrir, pudesse ver o filho novamente.

É a mesma esperança que cultiva ao chegar em casa e bater na porta do quarto do filho.

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“Eu bato uma, duas e até três vezes. Tenho esperança dele abrir”, diz em prantos enquanto olha o vazio do quarto.

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“Sempre criei meu filho para fazer o bem, então sempre procurei isso. Quando a gente tem um filho que é bom, que é carinhoso. Meu filho era luz, onde ele chegava era luz e ver ele ser tirado assim, dessa forma, ele não era bandido. Isso dói muito”, lamenta.

Para tentar seguir, Durce agora pretende montar um grupo com outras mães que perderam seus filhos em condições parecidas. Como ela costuma dizer, eram pessoas que estavam na hora errada e no lugar errado. Além disso, procura se manter firme por meio da fé e pela filha mais nova.

“Sei que preciso de ajuda [psicológica], mas ainda estou resistente e me sinto muito desamparada pelo poder público, porque eu tô levantando uma bandeira junto com mulheres em um projeto para que direitos humanos sejam voltados para o cidadão de bem, para as mães que perdem os filhos para essa violência. Nunca recebi apoio de direitos humanos, serviço social, nunca ninguém me procurou”, reclama.

Neto tinha o sonho de ser policial, segundo a mãe — Foto: Reprodução/Facebook

Sobre o filho, as lembranças estão por toda a casa, seja nas milhares de fotos que ela mantém do jovem, no quarto onde ainda ficam algumas roupas e até nos sonhos que a surpreendem no meio da noite.

A moto do barman foi recuperada, mas o celular dele a polícia nunca conseguiu achar. A mãe lamenta não ter acesso ao aparelho que, segundo ela, tinha muitos vídeos e fotos do filho.

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“Ele era o homem da casa, sempre me ajudava, era meu porto seguro. Me sinto acabada. A gente nunca se recupera, nunca mais vou ser a mesma. Tenho buscado muito a Deus e minha terapia é tentar ajudar as pessoas, esquecer um pouco minha dor”, destaca.

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E foi depois de um sonho com Neto, que ela conseguiu se desfazer de algumas coisas.

“Sonhei com ele dizendo que tava melhor lá do que se estivesse aqui, então o mal naquela noite não prevaleceu, porque, por mais que o inimigo tenha usado esses bandidos para tirar a vida do meu filho, Deus acolheu ele. Tenho certeza que meu filho virou um anjo que está cuidando de nós, de mim e da irmã dele. E ele quer que eu seja forte”, repete.

‘Só Deus pra me manter em pé’

Sucesso na voz de Chico Buarque e Zizi Possi, a música “pedaço de mim” tenta traduzir, em poucas, mas intensas frases, a dor de perder um filho, quando diz que “a saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”.

Traduz o sentimento de Durce e também da mãe de Antônio Railan, de apenas 17 anos. No dia 12 de maio deste ano, ele avisou à mãe que iria a uma festa em um hotel de Rio Branco.

No fim da festa, ele foi baleado com três tiros. Passou uma semana na UTI e depois teve morte cerebral. A polícia ainda não sabe a motivação do crime e nem há suspeitos identificados.

Para a mãe, que prefere não se identificar, ficaram as perguntas e a saudade do filho caçula.

“Meu filho pegou os tiros no Dias das Mães. Era tranquilo, não era de briga, ele gostava de festa, show, mas sempre muito tranquilo. A gente, como mãe, sempre diz que não é pra ir, mas ele disse que ia e voltava logo, mas nunca esperei que isso ia acontecer com meu filho”, relembra emocionada.

A mãe do adolescente é de uma classe social diferente de Durce. Humilde e mãe de quatro filhos, as palavras para tentar explicar a dor são resumidas, mas carregadas de muito sentimento.

“Depois que perdi meu filho, vivo de uma forma que não sei nem explicar. Vivo porque Deus permite, mas é uma dor que nunca vai passar. Só Deus na minha vida pra me manter de pé”, finaliza.

Adolescente fica em estado grave após ser baleado na cabeça durante baile funk no Acre — Foto: Arquivo pessoal

Violência

Nem sempre a violência chega ao extremo como a morte de alguém, mas pode deixar marcas invisíveis, que, se não tratadas, podem gerar problemas graves de saúde.

A reportagem também conversou com uma mulher que passou mais de 6 horas refém de bandidos. Ela, o filho, marido e o neto. Foram horas terríveis e de muita violência. Os bandidos roubaram o carro da família, além de outros objetos.

A consequência não foi só o prejuízo, mas também o trauma. “O pior é o trauma. Nós tivemos que providenciar mais segurança em casa, observamos mais, trouxemos mais gente para morar no mesmo terreno, mas o psicológico ficou bem abalado. Ainda mais do meu esposo, porque ele se sentiu muito impotente, porque não pôde fazer nada”, conta.

A família buscou alguns refúgios. A mulher revela que, geralmente, a casa é tida como um porto seguro e, a partir do momento que esse local é violado, passa-se a não se sentir mais tão confortável.

“A gente pede a proteção de Deus. Tenho muita fé, foi uma pressão muito grande, mas a gente tem que continuar vivendo e trabalhando, mas não ficou mais 100%”, assume.

Resistência e resiliência

O avanço da violência no estado faz, muitas vezes, as pessoas procurarem ajuda profissional para tratar o que a psicologia chama de estresse pós-traumático.

O psicólogo Arif Calacina explica que, quando se é exposto a uma situação de violência, isso pode acarretar problemas de saúde. E, assim como dores físicas, as dores psicológicas precisam ser tratadas.

“Uma pessoa que sofre um atentado violento, isso vai gerar uma marca, um trauma, que, dependendo das suas percepções e resistência emocional, essa experiência pode ser mais ou menos traumática”, explica.

Ele explica ainda que, no caso das mães que perderam o filho, é comum um período de luto, mas é preciso buscar mecanismo de se manter forte emocionalmente.

“Antes de qualquer coisa, elas estão vivenciando um processo normal, natural e que é necessário, que é o luto, mas com uma gravidade maior que é o luto causado por uma violência muito grande e que pode gerar consequências emocionais, físicas e sociais bem sérias e essa pessoa precisa ficar atenta”, pontua.

É importante destacar que a terapia é algo muito particular e individual e é necessária uma avaliação específica para cada pessoa. Por isso, ao sentir qualquer sentimento de angústia permanente, o indicado é procurar ajuda médica. No caso de a terapia não ser o suficiente, pode ser necessário recorrer à terapia medicamentosa.

“Vou fazer uma analogia. Biologicamente falando, quando entramos em contato com germes, bactérias ou vírus, que podem causar doenças, desenvolvemos anticorpos. O organismo se torna mais resiliente, resistente à ocorrência futura de uma enfermidade relacionada àqueles germes e bactérias. A resiliência no campo psicológico é parecido com isso: a pessoa tem experiências dolorosas, negativas em sua vida, mas adquire, com a experiência, mais resistência e suaviza um pouco essa dor”, pontua.

Amparo do estado

Os direitos humanos carregam um estigma: o de defender bandido. O pensamento comum, muitas vezes, faz com que as pessoas não conheçam os canais de acesso para que se tenha suporte do poder público em casos de violência extrema.

Dentro da Secretaria de Estado de Assistência Social, dos Direitos Humanos e de Políticas para as Mulheres (SEASDHM) existe essa assistência, como explica Francisca Brito, diretora de políticas de direitos humanos da pasta.

“Tem muito o estereótipo de que direitos humanos tratam apenas da defesa de presidiários, o que é muito ruim, porque o nosso trabalho é muito maior que isso. A gente tem o núcleo, que é o centro de referência em direitos humanos. Dentro dele, a gente tem uma equipe de atendimento psicossocial, que é formado por assistente social e psicólogos para todo tipo de atendimento que chega aqui”, explica,

Porém, não há procura neste setor, segundo a diretora, o que dificulta o levantamento de dados para traçar ações voltadas para essas pessoas.

“A gente tem esse atendimento psicossocial, mas, como poder público, precisamos ser provocados. A sociedade precisa nos procurar, até para que possamos ter o indicativo das pessoas que precisam disso, para que a gente possa melhorar as políticas de atendimento”, pontua.

Quem precisar de suporte dos direitos humanos, pode ir até a sede, que fica na Avenida Nações Unidas, em Rio Branco, número 2.731, na Estação Experimental. Ou pode ligar no (68) 3227 9047.

Depois desse atendimento, a equipe, montada por psicólogos e assistentes sociais, faz os encaminhamentos para unidades de saúde ou poder judiciário, dependendo do caso.

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“A partir disso é que vamos poder fazer um mapeamento e indicadores para sabermos o que as pessoas estão precisando, políticas de fortalecimento e promoção efetivas do direito das pessoas e qualquer tipo de violação de direitos, que é isso que a gente quer trabalhar”, garante.

Vítimas precisam procurar ajuda para tentar superar trauma causado pela violência — Foto: Editoria de Arte/G1

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